Um dia ia passando eu e meu grande amor, após uma festança muito doida, por um beco escuro da minha cidade.
O perigo começou naquele instante.
O que vejo perto de nós?
Um mendigo.
Eu tava eu cheio de cachaça, minha muié também. Putz.
Vi o pobre coitado do mendigo que disse que tinha fumado uns charutos e ficou doidão. Ele fedia muito.
Pensei. Que porra esse cara fez?
A coisa tava rebolando e mostrando suas vergonhas, naquele local pobre e fedido, além de escuro e perigoso.
Eu disse a ele que isso não tinha futuro, que procurasse uma assistência, que o ajudasse.
Ele tava quase morrendo de pálido e magro.
A miséria daquela figura me fez ver uma aberração social.
A consciência que ele não tinha do estado que observei nele, fez-me ver um Dom Quixote moderno, sem seu fiel escudeiro imaginário, para quem deveria pensar se despir.
Estava abandonado naquela situação toda.
Horrenda.
Parece ter mostrado-me o inferno em que eu próprio me encontrava, naquele momento, ao lado de minha amada.
Acredito eu, que se ele não acredita no diabo, ou fugia de uma diaba, o que devia ter visto na cabeça dele, para estar daquele jeito, não era normal.
Chegava perto de ser uma figura desumana, um loucura transviada de tudo e de todos.
Ele não devia saber da condição de ser um demônio em brasas, mas devia estar desejando queimar tudo ao seu redor.
Na sua mente corrompida pelo vício, ele pensava que era uma entidade, e achava que tinha o poder de encantar, negativamente quem o visse.
Querendo mentir para todos, negando a positividade de pessoas tristes, que ainda esperavam algo de bom nesta vida.
Carnes expostas e doidas rebolando-se pra todos que chegassem perto, era a desgraça humana, corrompendo a beleza de sonhos, para quem ainda os tinha.
A cachaça deve ter-me subido a minha cabeça de vez, naquele momento. Uma overdose irreal.
Depois dali, nunca mais bebi daquele jeito.
Para não recordar daquela noite triste, acabei meu relacionamente com a pessoa que tava do meu lado naquela hora. Era meu amor.
Perdi-a.
Decidi que depois daquela emoção, sentida naquele beco, que nunca mais daquele dia em diante iria tomar tanta bebida social normal, preferi adotar o cafezinho.
É mais dócil e entorpece menos que as viagens alcoolicas. É uma bebida aceita.
O que eu experimentei naquela noite, não foi legal para mim.
Será que um dia essa a frutinha (o café) que adotei por achar saudável, que decidi tomar torrada, moída e cozinhada, de forma social e decente, também vai fermentar?
Será que ela vai embriagar como uma aguardente forte?
Transformar-se em um prazer entorpecente, mais potente do que hoje tem o absinto? A bebida poderosa das noites mal dormidas, das boemias vândalas?
O mendigo doidão, se ainda viver, com certeza vai querer provar desta frutinha também, se ela tiver tal alteração em sua apresentação que o deixe mais feio e louco.
Esquecer do charuto que o deixou naquele estado de confusão.
Experimentar uma coisa livre e forte. Se acessível.
Ele vai tentar, eu acho, ficar bem pior, mais poderoso e charmoso.
O charuto dele, não sei se era liberado, o frutinho dos cafezais até agora é.
A novidade pode potencializar o efeito de sua figura, infernal.
Álcool resulta naquilo.
Charuto não sei.